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Belo filme.
Segundo o realizador Ang Lee, um épico sobre Kung Fu. Mas muito
mais que isso, é uma obra-de-arte, que nos mostra uma espécie
de bailado de artes marciais, com movimentação deveras graciosa,
exibindo voos espectaculares.
O filme começa com o mestre de artes marciais Li Mu Bai (Chow
Yun-Fat) decidido a deixar de vez a sua magnífica espada, esculpida
há 400 anos, conhecida como Destino Verde, e que tanta fama lhe
trouxe (pelo seu exímio uso). Li Mu Bai pretende mudar de vida.
Decide então entregar a espada a Yu Shu Lien, que está de partida
para Pequim, pedindo-lhe para a oferecer a Sir Te (Lung Sihung),
amigo do pai de Yu Shu Lien.
Em casa de Sir Te, ela conhece Jen (ZiYi Zhang), a bela filha
do governador local, uma rebelde menina que está prestes a casar
contra a sua própria vontade. Secretamente Jen treina e pratica
uma arte marcial especial que aprendeu e desenvolveu desde a infância.
Destino Verde é roubada, e há que descobrir quem o fez, e tentar
recuperá-la. A Raposa Jade (Jade Fox), a mulher que matou o mestre
de Li Mu Bai, é uma ameaça constante e há que eliminá-la. Mas
antes de morrer, ela ainda irá fazer alguns estragos...
Pelo meio temos duas histórias de amor: a dos pares Li Mu Bai/Yu
Shu Lien e Jen/Lo, sendo que Jen conheceu Lo no deserto de Gobi,
numa engraçada perseguição relacionada com o roubo de um pente.
Apaixonados e frustrados por não poder levar adiante o seu amor,
eles vivem com a tristeza de não poder estar por ora juntos, mas
com a esperança de que um dia isso seja possível. Jen demonstra
um domínio incrível sobre as artes marciais, proporcionando algumas
cenas de inegável beleza e graça (mesmo até no sentido literal
da palavra).
Este filme é mesmo uma obra-de-arte.
Comentário
Uma espécie
de fábula sobre o Bem e o Mal, com amores desencontrados
e numa busca contínua quase inconsciente. Um tributo às
artes marciais orientais, aqui com bastantes efeitos especiais,
que nos elevam a outra dimensão espiritual e sublime.
Possui todos os ingredientes necessários para nos manter
interessados do início ao final: acção, romance,
amizade, códigos de honra, traições, desejo
de liberdade e poder de decisão sobre a própria
vida e o futuro.
Sob a delicadeza
aparente da jovem guerreira Jen, surge uma lutadora invencível,
que se revela uma autêntica "arma mortífera"...
mostrando o poder feminino e principalmente o poder inerente ao
desejo de sair da rotina, lutar pelos objectivos e vencer preconceitos
pré-estabelecidos, tentando alcançar a felicidade
merecida. Daí talvez o facto dela voar tanto, como se desejasse
alcançar aquilo que na sua vida terrena era praticamente
impossível, já que tinham decidido o seu destino
e a ela apenas restava sonhar e soltar as asas do desejo... Esse
voo pode também simbolizar a fuga à realidade que
lhe desagrada, e o poder da mente e da libertação
das coisas terrenas, passando a um nível espiritual, com
total domínio do corpo e do espírito. A rebelde
Jen tinha assim total controlo das suas emoções
e capacidades, demonstrando que aí sim ninguém a
podia subjugar e ela foi a única que a Raposa Jade nunca
conseguiu vencer, apesar da sua aparente ingenuidade e fraqueza.
No ambiente
da China rural do séc. XIX, a acção vai-se
desenrolando com mais intensidade, com belíssimos cenários
e coreografias. O filme é falado em mandarim, o que colocou
grandes dificuldades aos actores, que não estavam familiarizados
com o idioma e praticamente tiveram que decorar o texto sem perceber
quase nada. Mas o resultado final do filme foi genial.
"O Tigre
e o Dragão" apela à nossa reflexão sobre
o importante de facto. Mostra tanto a perversidade como a bondade,
os opostos, numa luta constante e que acaba por se revelar infrutífera.
Chow Yun-Fat e a Raposa, mestres do Bem e do Mal, tanto lutaram
e acabam por perecer sem saber o que é gozar os prazeres
do Amor. Deveriam ter dedicado as suas forças na luta pela
felicidade, e essa faz-se sem armas mortíferas. Pelo contrário,
as armas usadas nessa "luta" são vitais: amor,
carinho, dedicação, bondade, sinceridade.
Michelle
Yeoh está fantástica neste filme, transmitindo uma
sensação de realismo. Chow Yun-Fat também,
sem esquecer ainda Zi Yi Zhang. As mulheres demonstram aqui ser
excelentes guerreiras wudan, e aquela cena em que Jen está
calmamente a tomar chá e dá cabo de todos que a
ameaçam, é espectacular.
A música
é excelente, proporcionando emoção e tensão.
De salientar o compositor clássico Tan Dun, e a participação
especial de Yo-Yo Ma.
A beleza "natural" das sequências no deserto é
evidente, e faz-nos sonhar ainda mais...
O "flash-back"
que conta a história de amor entre Jen e o jovem guerreiro
Lo, é belo e muito engraçado. É curiosa a
luta deles pelo pente, que revela a defesa do que é nosso,
a posse de algo que cremos ser lindo e útil, e que ninguém
mais tem o direito a tirar. Claro que isso serve neste caso de
pretexto para a descoberta e o início de um grande amor.
E então o importante não passa a ser a posse do
pente, mas sim a posse do outro, do amor. Lo refere mais do que
uma vez que Jen é sua...
Temos neste
filme um espetáculo impressionante de kung fu e uma espécie
de ballet acrobático. Parece que estamos perante um jogo
de computador ou consola, mas com imagens reais. A fotografia
também é excelente.
O guião
de O Tigre e o Dragão foi tirado de uma novela de cinco
capítulos escrita por Wang Du Lu. Proporciona-nos momentos
de reflexão e também de diversão. Devemos
respeitar a cultura e as lendas de outros países, mas confesso
que há cenas que realmente são cómicas. E
acredito que tenha sido propositadamente, para dar o resultado
final genialmente conseguido: um filme para reflectir e divertir.
O final deste filme é intrigante, ficando algumas questões
no ar. Será que vai haver uma sequela?
Wuxia é
um género literário muito popular na China, já
desde Confúcio. Os protagonistas deste género são
guerreiros de espírito livre e que dominam todas as técnicas
de artes marciais. Estas histórias são repletas
de melodrama e peripécias. A Ópera de Pequim utilizou
o género nas suas produções.
Na primeira
semana de filmagens, Michelle Yeoh distendeu o músculo
do pé, após uma cena de acção, tendo
que ser operada.
O coreógrafo
do filme (que é o mesmo dos filmes "Matrix" e
"Os anjos de Charlie") é o mestre chinês
Yuen Wo-Ping. Aliás, recordei mesmo algumas cenas desses
filmes. Os efeitos especiais foram muito bem conseguidos, embora
por vezes o resultado seja completamente inverosímil.
Os actores foram amarrados com espessos e pesados cabos, e levantados
no ar por um guindaste, tendo sucedido estarem a uma altura de
18 metros. Com 20 técnicos a ajudar, eles lutam em pleno
ar, e com a ajuda do computador, os cabos são apagados
do filme. Ou seja, os actores e os duplos lutaram de facto nos
telhados e sobre os bambuzais, tendo o computador sido utilizado
apenas para apagar os cabos que os suspendiam. Aliás, devo
referir que a cena da luta no bambuzal é fantástica.
Há um jogo de equilíbrio e concentração,
um diálogo de corpos e mentes.
Os conflitos
emocionais urgem ser resolvidos, mas a questão fica no
ar: será que Jen morreu ou o seu sonho realizou-se e ela
sobreviveu e viveram felizes para sempre? O que finalizou mal
foi o amor de Yu Shu Lien e de Li Mu Bai, mas foram lindas as
últimas palavras deste dirigidas à amada antes de
morrer: "Prefiro ser um fantasma e vaguear por aí
ao teu lado, do que entrar no céu sem ti...".
Mais palavras
para quê?
Uma boa sessão!
(*) Textos
de Ana Paula Mesquita especialmente para o regiaocentro.net
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