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Cinema - O Tigre e o Dragão

Elenco: Chow Yun-Fat, Michelle Yeoh, ZiYi Zhang, Chang Chen, Sihung Lung, Pei-pei Cheng

Ficha Técnica:
Realização: Ang Lee

Classificação: Não divulgada
Duração: 120 minutos
Idade: M/12
País de Origem: China/ Hong Kong/ Taiwan/ EUA



Site oficial
Wo Hu Zang Long



Sinopse

Belo filme. Segundo o realizador Ang Lee, um épico sobre Kung Fu. Mas muito mais que isso, é uma obra-de-arte, que nos mostra uma espécie de bailado de artes marciais, com movimentação deveras graciosa, exibindo voos espectaculares.

O filme começa com o mestre de artes marciais Li Mu Bai (Chow Yun-Fat) decidido a deixar de vez a sua magnífica espada, esculpida há 400 anos, conhecida como Destino Verde, e que tanta fama lhe trouxe (pelo seu exímio uso). Li Mu Bai pretende mudar de vida. Decide então entregar a espada a Yu Shu Lien, que está de partida para Pequim, pedindo-lhe para a oferecer a Sir Te (Lung Sihung), amigo do pai de Yu Shu Lien.

Em casa de Sir Te, ela conhece Jen (ZiYi Zhang), a bela filha do governador local, uma rebelde menina que está prestes a casar contra a sua própria vontade. Secretamente Jen treina e pratica uma arte marcial especial que aprendeu e desenvolveu desde a infância. Destino Verde é roubada, e há que descobrir quem o fez, e tentar recuperá-la. A Raposa Jade (Jade Fox), a mulher que matou o mestre de Li Mu Bai, é uma ameaça constante e há que eliminá-la. Mas antes de morrer, ela ainda irá fazer alguns estragos...

Pelo meio temos duas histórias de amor: a dos pares Li Mu Bai/Yu Shu Lien e Jen/Lo, sendo que Jen conheceu Lo no deserto de Gobi, numa engraçada perseguição relacionada com o roubo de um pente. Apaixonados e frustrados por não poder levar adiante o seu amor, eles vivem com a tristeza de não poder estar por ora juntos, mas com a esperança de que um dia isso seja possível. Jen demonstra um domínio incrível sobre as artes marciais, proporcionando algumas cenas de inegável beleza e graça (mesmo até no sentido literal da palavra).

Este filme é mesmo uma obra-de-arte.

Comentário

Uma espécie de fábula sobre o Bem e o Mal, com amores desencontrados e numa busca contínua quase inconsciente. Um tributo às artes marciais orientais, aqui com bastantes efeitos especiais, que nos elevam a outra dimensão espiritual e sublime.
Possui todos os ingredientes necessários para nos manter interessados do início ao final: acção, romance, amizade, códigos de honra, traições, desejo de liberdade e poder de decisão sobre a própria vida e o futuro.

Sob a delicadeza aparente da jovem guerreira Jen, surge uma lutadora invencível, que se revela uma autêntica "arma mortífera"... mostrando o poder feminino e principalmente o poder inerente ao desejo de sair da rotina, lutar pelos objectivos e vencer preconceitos pré-estabelecidos, tentando alcançar a felicidade merecida. Daí talvez o facto dela voar tanto, como se desejasse alcançar aquilo que na sua vida terrena era praticamente impossível, já que tinham decidido o seu destino e a ela apenas restava sonhar e soltar as asas do desejo... Esse voo pode também simbolizar a fuga à realidade que lhe desagrada, e o poder da mente e da libertação das coisas terrenas, passando a um nível espiritual, com total domínio do corpo e do espírito. A rebelde Jen tinha assim total controlo das suas emoções e capacidades, demonstrando que aí sim ninguém a podia subjugar e ela foi a única que a Raposa Jade nunca conseguiu vencer, apesar da sua aparente ingenuidade e fraqueza.

No ambiente da China rural do séc. XIX, a acção vai-se desenrolando com mais intensidade, com belíssimos cenários e coreografias. O filme é falado em mandarim, o que colocou grandes dificuldades aos actores, que não estavam familiarizados com o idioma e praticamente tiveram que decorar o texto sem perceber quase nada. Mas o resultado final do filme foi genial.

"O Tigre e o Dragão" apela à nossa reflexão sobre o importante de facto. Mostra tanto a perversidade como a bondade, os opostos, numa luta constante e que acaba por se revelar infrutífera. Chow Yun-Fat e a Raposa, mestres do Bem e do Mal, tanto lutaram e acabam por perecer sem saber o que é gozar os prazeres do Amor. Deveriam ter dedicado as suas forças na luta pela felicidade, e essa faz-se sem armas mortíferas. Pelo contrário, as armas usadas nessa "luta" são vitais: amor, carinho, dedicação, bondade, sinceridade.

Michelle Yeoh está fantástica neste filme, transmitindo uma sensação de realismo. Chow Yun-Fat também, sem esquecer ainda Zi Yi Zhang. As mulheres demonstram aqui ser excelentes guerreiras wudan, e aquela cena em que Jen está calmamente a tomar chá e dá cabo de todos que a ameaçam, é espectacular.

A música é excelente, proporcionando emoção e tensão. De salientar o compositor clássico Tan Dun, e a participação especial de Yo-Yo Ma.

A beleza "natural" das sequências no deserto é evidente, e faz-nos sonhar ainda mais...

O "flash-back" que conta a história de amor entre Jen e o jovem guerreiro Lo, é belo e muito engraçado. É curiosa a luta deles pelo pente, que revela a defesa do que é nosso, a posse de algo que cremos ser lindo e útil, e que ninguém mais tem o direito a tirar. Claro que isso serve neste caso de pretexto para a descoberta e o início de um grande amor. E então o importante não passa a ser a posse do pente, mas sim a posse do outro, do amor. Lo refere mais do que uma vez que Jen é sua...

Temos neste filme um espetáculo impressionante de kung fu e uma espécie de ballet acrobático. Parece que estamos perante um jogo de computador ou consola, mas com imagens reais. A fotografia também é excelente.

O guião de O Tigre e o Dragão foi tirado de uma novela de cinco capítulos escrita por Wang Du Lu. Proporciona-nos momentos de reflexão e também de diversão. Devemos respeitar a cultura e as lendas de outros países, mas confesso que há cenas que realmente são cómicas. E acredito que tenha sido propositadamente, para dar o resultado final genialmente conseguido: um filme para reflectir e divertir.
O final deste filme é intrigante, ficando algumas questões no ar. Será que vai haver uma sequela?

Wuxia é um género literário muito popular na China, já desde Confúcio. Os protagonistas deste género são guerreiros de espírito livre e que dominam todas as técnicas de artes marciais. Estas histórias são repletas de melodrama e peripécias. A Ópera de Pequim utilizou o género nas suas produções.

Na primeira semana de filmagens, Michelle Yeoh distendeu o músculo do pé, após uma cena de acção, tendo que ser operada.

O coreógrafo do filme (que é o mesmo dos filmes "Matrix" e "Os anjos de Charlie") é o mestre chinês Yuen Wo-Ping. Aliás, recordei mesmo algumas cenas desses filmes. Os efeitos especiais foram muito bem conseguidos, embora por vezes o resultado seja completamente inverosímil.
Os actores foram amarrados com espessos e pesados cabos, e levantados no ar por um guindaste, tendo sucedido estarem a uma altura de 18 metros. Com 20 técnicos a ajudar, eles lutam em pleno ar, e com a ajuda do computador, os cabos são apagados do filme. Ou seja, os actores e os duplos lutaram de facto nos telhados e sobre os bambuzais, tendo o computador sido utilizado apenas para apagar os cabos que os suspendiam. Aliás, devo referir que a cena da luta no bambuzal é fantástica. Há um jogo de equilíbrio e concentração, um diálogo de corpos e mentes.

Os conflitos emocionais urgem ser resolvidos, mas a questão fica no ar: será que Jen morreu ou o seu sonho realizou-se e ela sobreviveu e viveram felizes para sempre? O que finalizou mal foi o amor de Yu Shu Lien e de Li Mu Bai, mas foram lindas as últimas palavras deste dirigidas à amada antes de morrer: "Prefiro ser um fantasma e vaguear por aí ao teu lado, do que entrar no céu sem ti...".

Mais palavras para quê?

Uma boa sessão!

(*) Textos de Ana Paula Mesquita especialmente para o regiaocentro.net

 

Uma realização Ectep,Lda.