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Intrigante
filme de M. Night Shyamalan, o realizador de "O Sexto
Sentido", com Bruce Willis e Samuel L. Jackson. David
Dunn (Bruce Willis) é um ex-jogador de futebol americano
e "segurança" de um estádio. Certo dia, após uma entrevista
de emprego, apanha um combóio de Nova Iorque para
Filadélfia. O combóio sofre um acidente e colide com
outro em sentido contrário, morrendo 131 passageiros,
sendo Dunn o único sobrevivente da tragédia.
Elijah Price (Samuel L. Jackson) é um rico coleccionador
de banda desenhada, uma pessoa estranha, que quer
convencer David de que este tem poderes como os dos
super-heróis, sendo invencível, inquebrável, ao invés
de si próprio, que possui uma rara doença que lhe
tornou os ossos frágeis como vidro (daí ser conhecido
como Mr. Glass). David não quer crer nesse poder invencível,
mas começa a questionar-se se de facto não foi essa
a razão pela qual ele foi o único sobrevivente do
acidente e saiu ileso... não estará a subestimar-se?
Intrigado com o sucedido, começa a convencer-se que
de facto há no mundo pessoas que são indestrutíveis.
Os seus valores e referências são questionados e revistos.
Elijah, com as suas referências e obsessões da banda
desenhada deixa-o confuso. A sua identidade vê-se
dividida, vacilada, e ele não está a conseguir lidar
bem com esse facto e esse fardo.
Para agravar tudo isto, a sua situação familiar está
a ruir, a carreira profissional também não é das melhores...
Elijah é o oposto de David, pois também neste mundo
tudo tem um "reverso da medalha", pólos opostos. No
início parece ser uma excelente pessoa, mas está repleto
de calculismo e maldade. Elijah é o ser frágil, com
a doença que o acompanha desde a infância, um ser
amargurado, cujos ossos partem muito facilmente, e
David é o ser "inquebrável", sobrevivente de um grave
acidente... Extremos opostos. Uma espécie de herói
e vilão. Na vida real.
Comentário
Deveras
intrigante este filme acerca da fragilidade humana
e da busca de uma identidade, na angústia de um ser
humano à procura de resposta às suas dúvidas e de
uma razão para a existência. Uma tentativa de enquadrar
todo um mundo imaginário na realidade, fazer um paralelo
entre a Banda Desenhada e o mundo real, onde o protagonista
principal, David Dunn (Bruce Willis) é como uma criança
crescida que não se deu a ela própria o direito à
imaginação, vindo a descobri-la já tarde e de forma
assombrosa.
Há uma inserção do sobrenatural na vida quotidiana.
Um suspense anunciado, uma possível resposta do ser
humano ao fantástico, ao incrível. Elijah acredita
que os heróis da banda desenhada são tipos exagerados
de pessoas poderosas do mundo real, e na tentativa
de convencer David, vai influenciar a vida familiar
deste, chegando ao ponto do filho de David pensar
que o pai é mesmo indestrutível e tentar matá-lo para
o provar.
Toda a criança pensa, na sua inocência, que os pais
são indestrutíveis. Mas o calculismo de Elijah chega
a ser tão perverso, que põe em risco e mata imensas
pessoas. Ele e David são pólos opostos, o mal e o
bem. Calculismo e inocência. Com uma intensa profundidade
dramática, um clima escuro, azul, silencioso, onde
os sussurros e mesmo os silêncios nos fazem pensar
nas almas abatidas, na tristeza, frustração e vazio
de seres desencontrados e perdidos no mundo e de si
mesmos.
De salientar a excelente direcção fotográfica do português
Eduardo Serra. Shyamalan tem uma breve aparição no
filme, mostrando alguns dotes na arte de representar.
Este filme faz-nos questionar o que realmente aconteceria
se neste mundo houvesse heróis... Mas provavelmente
haveria também muitos vilões... Será que não há?
(*)
Textos de Ana Paula Mesquita especialmente para o
regiaocentro.net
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