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Buçaco
«O MONTE SACRO»
Estando no Luso, a Serra parece apenas mais uma serra com montes
muito uniformes que se apresentam verdejantes. Aproximamo-nos e
a surpresa funciona como o desvendar de um mistério. O Buçaco
deve ser, sem dúvida, a mata mais genuína e virgem
que existe na região centro. Cheia de alamedas bem cuidadas,
veredas de verdes semblantes e cheiros intensos. E do silêncio,
no seio daquela exuberância "divina", saltam os
ruídos dos regatos saltitantes e dos pássaros em voo,
que parecem autênticas melodias.
Seja qual for a porta usada para entrar na Mata a sensação
é sempre a mesma. Transpõe-se o muro e entra-se num
mundo novo. O barulho dos carros apaga-se e apenas se ouvem pássaros,
regatos e o ranger de madeira de alguma árvore que abana
com o vento. Nem é preciso um grande esforço para
percorrer toda a maravilha que o Buçaco encerra. Nem se dá
conta dos quilómetros que se percorrem porque o prazer de
"saborear" aquela paisagem, de ver, ouvir e sentir toda
aquela natureza em bruto fazem-nos deslizar encostas abaixo e acima,
num deambular quase divinal. Aquele Monte Santo porque se destinava
à oração de frades, é um local de passeio
incrivelmente fiel à sua origem. Hoje, nas suas capelas já
não se faz oração, mas elas são inspiradoras
de tranquilidade, de harmonia. Envoltas em heras, arbustos e árvores
de grande porte fazem imaginar o tipo de homens que por elas sofreram,
que por elas rezaram e que por elas perderam dias e noites na sua
construção. Os caminhos da mata do Buçaco são
de uma beleza simples, mas autêntica, onde se caminha sobre
tapetes de musgo fofo e onde cada flor e cada erva têm um
significado especial. Aqui não se vê o lixo e os maus
cheiros que existem noutros locais que se queriam semelhantes. Há
um respeito intrínseco por parte das pessoas. O local é
tão belo e o seu equilíbrio natural tão frágil
que qualquer maldade o pode matar. E o mais positivo é que
as pessoas se apercebem disso e respeitam.
Mas partamos à descoberta desta terra que pertenceu aos Carmelitas
Descalços. Entrando pelas Portas das Ameias podemos subir
até ao Palácio. É uma obra digna de apreciação.
Tiradas umas boas fotografias e dado um passeio em seu redor, porque
não passar o Calvário e subir os muitos degraus que
levam à Cruz Alta? O passeio é quase indiscritível.
Falta o ar não só pelo cansaço da subida, mas
principalmente pela grandiosidade da natureza que nos envolve. Chegados
à cruz, sobem-se as escadas e mais uma vez, se perde o fôlego.
A vista é arrebatadora. É uma imensidão de
verde que nunca mais acaba. É uma imagem inesquecível.
Descemos por outro caminho que nos levará, mais uma vez,
ao palácio, passando pelas portas de Coimbra e seguindo pela
Avenida dos Cedros. Daqui poderemos seguir para um dos locais mais
emblemáticos da mata. O Vale dos Fetos. A vegetação
é tão densa que a luz do sol apenas entra por entre
alguns ramos mais abertos. O clima é diferente. A humidade
permite aos fetos, gigantes e centenários, uma tonalidade
de um verde vivo e um aspecto viçoso e muito fresco. Desce-se
o vale e temos a sensação de estar algures numa floresta
tropical. O cheiro a terra molhada e a plantas frescas, os pequenos
raios de sol que escapam entre as árvores muito juntas. Tudo
nos encanta.
Para quem não gosta de se aventurar em caminhos que não
conhece, é possível realizar alguns percursos Históricos
e Botânicos propostos pelos responsáveis da mata. Esta
informação pode ser recolhida na Junta de Turismo
Luso/Buçaco.
Uma mata histórica
Augusto Mendes Simões de Castro descreve o Buçaco
de uma forma exuberante pel' "A situação encantadora
d'aquella floresta secular; a riqueza, variedade e pompa dos seus
arvoredos admiráveis; suas águas abundantes e puríssimas;
um ar fino e saudável, e sempre puro e fresco ainda nos mais
intensos ardores do estio; o mosteiro humilde, recordações
históricas e lendas curiosas e cheias de interesse: tudo
concorre para fazer do Buçaco um logar delicioso, e justamente
celebrado".
Mas tudo o que está entre muros é digno de referência.
As "deleitosas avenidas tapetadas de musgo e toldadas por densíssima
ramagem. As fontes de águas puras e cristalinas todas forradas
a musgo muito verde, os regatos, as ermidas, as magníficas
paisagens, o verde das plantas".
Os Carmelitas Descalços fundam este ermitério num
local doado por D. João Manuel, bispo de Coimbra. Possuía
matas e terras a que chamavam Buçaco, perto do Luso. A doação
foi feita, sendo a mata avaliada, na altura, em 180 mil réis,
pois tinha pouco rendimento. No centro da mata foi fundado o Convento
dos Frades Carmelitas Descalços. Os responsáveis foram
Frei Thomaz de São Cyrilho, Frei João Baptista e Alberto
da Viagem (arquitecto).
Deixando Aveiro a 29 de Junho de 1628 os religiosos hospedaram-se
no Luso com pouca bagagem e apenas dez cruzados para o início
da obra. A primeira pedra do convento foi lançada a 7 de
Agosto de 1628. A 19 de Março de 1630 começou a "regularidade
eremítica". "Desde então os espessos arvoredos,
que já a esse tempo povoavam a cerca, foram acrescentados
pela curiosidade dos frades, que se dedicavam à sua cultura
com solicito empenho. O prelado por obrigação e costume
antigo mandava todos os anos semear e plantar certo número
de cedros, que hoje nos causam tanta admiração pela
sua corpulência e formosura" (Augusto Mendes Simões
de Castro , 1875 - pag.7).
Tal era a riqueza desta mata, que o Papa urbano VIII decretou uma
sentença de excomunhão contra quem violasse a clausura
dos que ali viviam e tentasse destruir os arvoredos (28 de Março
de 1643). Esta sentença foi publicada em 1690 pelo bispo
conde D. João de Mello. Foi também gravada numa pedra
na portaria principal da mata onde ainda hoje se pode ler.
Com ajuda de benfeitores os eremitas conseguiram o dinheiro suficiente
para murar a mata, abrirem ruas largas, edificar eremidas e capelinhas
e construir fontes. Assim a mata tornou-se um local ainda mais aprazível.
(*) Textos e imagens de Salome Joanaz especialmente para o regiaocentro.net
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