As caves escuras (tintos, brancos e correntes) e húmidas
(espumantes), a uma temperatura constante, guardam muitos anos
de sabedoria. É dali que saem os tintos mais poderosos
e os brancos mais suaves, mas nem por isso com menos personalidade.
E enquanto ali descansam vão sendo parceiros de segredos,
de modos de fabrico e de algumas técnicas que aos poucos
caem no esquecimento. Mas é neste local de silêncio
que muitos dos melhores vinhos da Bairrada atingem a idade adulta
e dão fama ao seu nome. Os vinhos Messias são uma
das muitas marcas que se podem encontrar.
Depois de entrar na Mealhada, a Estrada Nacional 1 rapidamente
leva às Caves Messias. As instalações, de
mais de 60.000 metros quadrados, acolhem áreas de esmagamento,
fermentação, estabilização, enchimento,
rotulação, estágio e armazenamento. Há
também um laboratório onde os vinhos são
analisados uma vez por mês.
A visita é guiada e acompanhada por um técnico especializado.
Começa pelos armazéns, fase final do processo. Depois
de passar pela rotulação sobe-se até ao local
da fermentação dos tintos. É nesses grandes
depósitos de cimento (protegidos interiormente para que
o vinho não se danifique) que o mosto fermenta junto com
o engaço. Quando entra nos depósitos é arrefecido
para que a temperatura da fermentação não
seja muito alta. Fermenta entre os 25º e os 30º. É
aqui que também que "são mexidos" - como
explica a analista Sofia Tomás - "para que o vinho
ganhe mais cor". "Daqui segue para a zona de estabilização".
Com os vinhos brancos os cuidados são um pouco diferentes.
Começam logo após o esmagamento. O mosto é
escorrido e armazenado em depósitos de inox. O passo seguinte
é a defecação (dá-se frio ao mosto)
para que as impurezas que ainda ficaram vão "ao fundo".
"Por cima fica a parte boa que irá para os depósitos
de fermentação onde se pode controlar a temperatura.
Deve fermentar entre os 18º e os 22º. Sofia Tomás
defende que "assim o resultado é muito melhor a nível
de aroma e qualidade".
Na "zona de vinhos para engarrafamento" colocam-se os
vinho já filtrados e prontos a encher garrafas, mediante
as necessidades comerciais. Anualmente ficam reservadas algumas
quantidades de vinhos em cascos de carvalho. Aí permanecem
durante mais de um ano antes de serem comercializados. "Reservas
mais antigas só existem em garrafa". "Também
neste armazém dos tonéis há uma área
de reservatórios em inox onde está contida a produção
do ano que será engarrafada no ano seguinte, também
mediante as necessidades do mercado", adianta Sofia Tomás.
Em barris mais pequenos estagiam os vinhos de "castas elementares,
ou seja, de casta única, que pode ser Baga, Cavernnete
e Castelão. Estes vinhos vêm da Quinta do Vale do
Eiro, aqui na Bairrada".
Sofia Tomás recorda que os vinhos Messias são Vinhos
de Qualidade Produzidos em Região Demarcada (VQPRD) e que
" para serem considerados Bairrada têm que ter no mínimo
50% de vinho da casta BAGA". Os vinhos correntes produzidos
nesta casa são originários (na sua maioria) de pequenos
produtores. Estes vinhos enquanto não são comercializados
ficam armazenados nas caves.
Caves de espumantes
Depois de engarrafados, os futuros "espumantes" ficam
em fermentação dentro da garrafa, numa posição
horizontal. "Depois os vinhos são "batidos"
para que se soltem as impurezas. Quando as garrafas vão
para a zona de "remoage" ficam na horizontal, colocadas
em "pepites" (género de garrafeira em madeira)
onde permanecem durante cerca de 25 dias, sendo rodadas ¼
de volta todos os dias até alcançarem a posição
vertical. A temperatura mantém-se constante a 16º".
Depois de rodadas as garrafas, as impurezas ficam agarradas às
cápsulas. Nesta altura as garrafas já se encontram
na vertical, com a cápsula para baixo e seguem para o local
onde é feito o "degorgemment", ou seja, "o
congelamento da cápsula e impurezas. É aqui que,
também, é retirada a cápsula com a impureza
"colada". Na mesma altura é misturado o licor
através de um doseador, licor esse que lhe dará
o sabor mais ou menos doce". "Numa última fase
do processo de engarrafamento", explica Sofia Tomás,
"colocam-se as rolhas e os "muselets" a envolve-las
(um fino arame). Após todas estas operações
os vários espumantes ficam a descansar na zona de armazenamento,
em pequenos compartimentos frios e com alguma humidade durante
- no mínimo - nove meses, até serem comercializados.
As origens dos vinhos Messias
Estava-se em 1926 quando Messias Baptista fundou este "império"
de vinhos. Actualmente a empresa detém, só na região
da Bairrada, mais de 160 hectares de vinha. Setenta e cinco por
cento da produção segue para mercados estrangeiros
e algumas das marcas detêm prémios internacionais.
Sendo a Bairrada uma região com características
especiais para a produção de vinhos, o desenvolvimento
das produções e apuramento dos sabores das uvas
é favorecido pelo sol que incide nas colinas de terras
barrentas, repletas de vinhedos. A vantagem principal deste produtor
/ engarrafador é o facto de ser proprietário das
suas próprias vinhas, o que permitiu ao logo dos anos apurar
castas e melhorar, assim, a qualidade dos vinhos.
Os vinhos "Bairrada" que são colocados nos locais
de venda podem ser brancos, tintos, rosados, aguardentes bagaceiras
e espumantes brancos ou tintos.
(*) Textos e imagens de Salome Joanaz especialmente para o regiaocentro.net